A FIV e a ICSI ainda são
empregadas nos casos onde se pretende fazer diagnóstico
genético pré-implantacional (PGD). O Diagnóstico
Genético Pré-Implantacional (PGD) consiste
em remover 1 ou 2 células de cada embrião
(geralmente 3 ou 5 dias após a coleta dos óvulos),
com o auxílio de um microscópio de micromanipulação,
para estudos genéticos, antes de serem transferidos
para o útero. O objetivo é selecionar embriões
com menor risco de gerar crianças deficientes, bem
como diminuir a taxa de abortos de causa genética.
O fenômeno conhecido por mosaicismo, comum nos embriões,
caracterizado pela desigualdade no conteúdo de DNA
nas diferentes células do embrião, gerado
no momento de uma divisão celular imperfeita, reduz
a segurança no resultado, pois a célula testada
pode ser geneticamente diferente das outras. Com apenas
uma ou duas células para teste em cada embrião
(a remoção de mais células comprometeria
a sobrevida dos embriões), não é viável
"ainda" pesquisar todas as possíveis doenças
genéticas.
As doenças genéticas
poderiam ser classificadas em dois diferentes grupos:
1 - Anomalias cromossômicas:
São mutações no número de cromossomos
(anomalias cromossômicas numéricas), como triploidias
(69 cromossomos ao invés de 46), tetraploidias (92
cromossomos ao invés de 46), monoploidias (23 cromossomos
ao invés de 46) e aneuploidias (quando apenas um
ou alguns cromossomos se encontram em número alterado).
As poliploidias (triploidias e tetraploidias) e monoploidias,
embora muito freqüentes, são de menor interesse
clínico, pois não nascem crianças,
devido a gravidade das mutações. As aneuploidias
ocorrem mais ou menos na mesma freqüência em
todos os cromossomos, mas são de maior interesse
clínico as que envolvem cromossomos pequenos (o cromossomo
1 é o maior deles, seguido do 2, do 3 e assim por
diante), com menor número de genes, por permitirem
o nascimento de bebês com vida e deficientes. As trissomias
(ao invés de 23 pares de cromossomos, teríamos
22 pares e uma trinca de um dos cromossomos) e as monossomias
(22 pares de cromossomos e 1 cromossomo sem par) ocorrem
em proporções iguais, mas como é mais
fácil nascer um bebê com excesso de cromossomos
do que com falta, as trissomias são de maior interesse
clínico que as monossomias. Dentre as trissomias,
as mais importantes são a Síndrome de Down
(trissomia do cromossomo 21), Síndrome de Edwards
(trissomia do cromossomo 18), Síndrome de Patau (trissomia
do cromossomo 13), Síndrome de Klinefelter (cromossomos
X extras), Genótipo 47,XYY (2 cromossomos Y ao invés
de apenas 1), Genótipo 47,XXX (3 cromossomos X ao
invés de apenas 2). A monossomia de maior importância
clínica é a Síndrome de Turner (apenas
1 cromossomo X ao invés de um par). Há ainda
como testar anomalias cromossômicas estruturais, tais
como deleções (quando falta parte de um ou
mais cromossomos), translocações (quando pedaços
de dois cromossomos estão trocados entre si), inversões
(quando parte de um cromossomo tem sua posição
invertida) e duplicações (quando parte de
um cromossomo está duplicado). As anomalias cromossômicas
numéricas e estruturais são geralmente pesquisadas
através das técnicas de Fluorescence In Situ
Hybridization (FISH) e Comparative Genome Hybridization
(CGH).
2 - Anomalias gênicas
(monogênicas ou poligênicas): São mutações
comprometendo a função de apenas um gene ou
de alguns genes. As mutações gênicas
são pesquisadas através de técnicas
como a Polimerase Chain Reaction (PCR) e ultimamente por
Ships de DNA ou Microarrays.
As células obtidas
através de biópsia do embriões podem
ser examinadas por quatro principais métodos, dependendo
do tipo de anomalia que se pretende pesquisar:
1 - FISH (fluorescence in
situ hybridization). Os cromossomos são marcados
com sondas fluorescentes e examinados com um microscópio
de fluorescência. Permite detectar anomalias cromossômicas
numéricas e com kits especialmente desenvolvidos,
algumas anomalias cromossômicas estruturais. Hoje
as anomalias cromossômicas estruturais são
geralmente pesquisadas com o método Comparative Genome
Hybridization (CGH). Entre 80 e 85% dos embriões
com mutações cromossômicas numéricas,
podem ser eliminados numa rotina convencional de FISH, utilizando-se
o kit de sondas conhecido por MultiVysion PGT Multi-color
Probe Set. O FISH também permite saber o sexo dos
embriões. Com o CGH a precisão ainda é
maior e só não é de 100% por conta
do fenômeno "Mosaicismo" descrito acima.
2 - Comparative Genome Hybridization
(CGH). Esse método é bastante interessante,
pois permite visualizar todos os cromossomos integralmente,
possibilitando uma avaliação bem mais completa
das anomalias cromossômicas que com o método
FISH. Também permite pesquisar as anomalias cromossômicas
estruturais citadas acima (deleções, translocações,
inversões e duplicações).
3 - PCR (Polimerase Chain Reaction). Permite detectar mutações
gênicas (quando apenas um gene ou alguns genes estão
comprometidos). Sua limitação, pelo menos
por hora, além do custo, é que tendo apenas
1 ou 2 células para exame, deve ser direcionado para
uma mutação, já identificada em familiares
dos pacientes e portanto não evita outras mutações,
pois que não teriam sido testadas (possuímos
em torno de 25.000 genes). Num futuro relativamente próximo,
é possível que estejam disponíveis
no mercado, kits conhecidos por Ships de DNA ou Microarray,
que possibilitarão investigar milhares de mutações
gênicas simultaneamente, numa única célula.
4 - Ships de DNA ou Microarray, que possibilitam investigar
milhares de mutações gênicas simultaneamente,
numa única célula. É uma tecnologia
em desenvolvimento e ainda extremamente cara.
O método ideal para
seleção de sexo, deveria separar com 100%
de acerto os espermatozoides Y (geradores de meninos) dos
espermatozoides X (geradores de meninas). Assim, todos os
óvulos obtidos seriam fertilizados com espermatozoides
do sexo desejado, produzindo um bom número de embriões,
evitando o descarte de embriões do sexo indesejado
e garantindo uma boa taxa de gravidez. Deveria ser pouco
invasivo e ter baixo custo. Esse método não
existe. Uma técnica que vem sendo desenvolvida há
vários anos (Microsort), ainda não está
no mercado, mas como envolve a tecnologia de citometria
de fluxo, seguramente não deverá ser barata,
pois o equipamento para citometria de fluxo é muito
caro. Outros métodos divulgados por profissionais
da área, propondo separar os espermatozoides Y dos
espermatozoides X, não conseguem desviar nem mesmo
em 5% a proporção de meninos e meninas. Tais
métodos são relativamente simples e podem
ser incluídos na técnica, sem nenhum custo
adicional. Com o FISH a seleção de sexo é
acertada em praticamente 100% dos casos. Há no entanto
algumas desvantagens:
1 - Só pode ser realizado com fertilização
in vitro convencional (FIV) ou injeção intracitoplasmática
de espermatozóide (ICSI), já que os embriões
são examinados antes da transferência para
o útero. Isso torna o método mais caro e mais
invasivo;
2 - Não permite decidir previamente se os óvulos
serão fertilizados por espermatozoides X ou espermatozoides
Y, mas sim saber se os embriões (óvulos já
fertilizados) são XX (menina) ou XY (menino). Isso
leva ao descarte dos embriões do sexo não
desejado, o que vai contra as normas éticas do Conselho
Federal de Medicina, além de reduzir as chances de
produzir bebês, uma vez que aproximadamente metade
dos embriões produzidos terão o sexo indesejado
e não serão transferidos para o útero.
Pode acontecer de todos os embriões com boa qualidade
serem do sexo indesejado, não havendo nada para transferir.
3 - As sondas fluorescentes são caras e o método
ocupa todo um dia de trabalho, o que torna seu custo elevado.
O PGD, com finalidade exclusiva de escolher o sexo do bebê,
é tema bastante polêmico. O Conselho Federal
de Medicina, em sua Resolução nº 1.957
de 2010, que estabelece Normas Éticas, a serem seguidas
por profissionais médicos, que atuam em reprodução
assistida, considera a técnica antiética,
pois acarreta no descarte de embriões do sexo indesejado.
Uma forma de contornar a questão, seria por exemplo
a doação dos embriões de sexo indesejado
para outros casais (solução mais ética)
ou mesmo para pesquisas, após terem permanecido congelados
por pelo menos 3 anos (menos antiética que descartar
embriões, mas ainda assim antiética). Estamos
equipados para realizar o PGD, que permite conhecer o sexo
dos embriões, embora seu emprego em nossa clínica
seja com intuito de evitar doenças. Poderemos ajudar
na escolha do sexo do bebê, mas se conseguirmos encontrar
uma solução ética.